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Complemento direto como universal linguístico

Após termos visto a função do Complemento Direto como universal linguístico segundo postula Teresa Moure, cobram sentido diversos fenómenos linguísticos ocorridos em muitas línguas ao longo do tempo (e ainda em curso). Por exemplo, a construção galego-portuguesa "assistir a" + "uma conferência", "um filme"... está a perder no Brasil a regência da preposição, passando por tanto a ter um complemento direto que funciona como absolutamente prototípico nesta variante da língua. Desta maneira, aliás, no Brasil este objeto pleno passa a poder ocupar a posição de sujeito na construção passiva como em "O filme foi assistido por vinte mil pessoas", coisa impossível nas variantes europeias. Assim, podemos apreciar uma reinterpretação desta entidade, que constitui "o segundo actante da construção transitiva" como define Moure o Complemento Direto, e apesar de não ser o exemplo mais prototípico (uma entidade afetada pela ação verbal, com papel de pa...

Sobre a leitura dos capítulos 3 e 8 de Pinker

 Este autor demonstra uma postura universalista extrema, desabalando completamente a teoria do relativismo linguístico, já que afirma que a linguagem não pode condicionar nenhum aspeto do pensamento humano, e o faz através das afirmações de Whorf, e do exemplo da obra 1984 de George Orwell.  Sobre os conhecidíssimos exemplos de Whorf em termos de vocabulário supostamente específico de cada língua que evidenciaria uma cosmovisão única (a "neve" inuit), desmonta essa estendida teoria com argumentos comparatistas com outras línguas e situações (revelando o incorreto deste exemplo para demonstrar qualquer teoria relativista). No caso da obra de George Orwell, por exemplo, teoriza-se sobre um mundo em que uma linguagem submetida a uns determinados interesses políticos, de controlo absoluto da população, consegue eliminar da sua mente os conceitos de liberdade política etc. eliminando-os da língua, de forma que se tornam inconcebíveis, isto suporia um absoluto extremo da posição re...

A Hipótese da Relatividade contradiz a existência de universais?

No exercício proposto sobre a tradução ao alemão de um fragmento de Rayuela de Julio Cortázar podemos comprovar que o tradutor teve que enfrentar, para além das habituais dificuldades da tradução, o desafio de "traduzir" palavras que não existem, cuja sonoridade evoca por vezes palavras reais do espanhol, algo muito difícil de reproduzir noutras línguas. O significado, a narração de um encontro sexual, é logicamente mais fácil de deduzir para qualquer falante de espanhol, em parte pelas palavras que evocam outras reais (jadehollante- jadeante, envulsionarse- convulsionar, merpasmo- orgasmo). Mas para além disso, eu vejo um outro componente semântico subjacente à narração, que podemos entender como universal, que permite compreender o seu tema, constituído pela presença de dois participantes de ações exercidas um sobre o outro, com verbos que implicam movimento ou sensações tão fortes que também produzem efeitos físicos. No entanto, sob esta descrição, certamente o tema poderi...

Respostas ao teste sobre a leitura de Palmer

 Deixo por aqui as minhas repostas já que não consegui responder no próprio formulário. 1 c 2d 3ª 4ª 5b 6b 7c 8ª 9c 10b 11b 12b 13 quando a observadora é externa à cultura, embora participe nela no estudo, precisa “assistência” de alguém interno 14 são muito dependentes do contexto da conversa 15 a, c 16 um ato de fala cujo conteúdo não é verdadeiro, havendo uma intenção de quem o emite de enunciá-lo mesmo assim 17 a claro que sim b claro que não c é 18 a vermelha b verde ou amarelo c azul 19 “subir a moral” “ter em alta estima” “baixar os ânimos” “olhar por cima do ombro” “elevar o status” “baixeza moral” 20 a mim pareceu-me que transmite muito claramente a complexidade da comparação ente todas as línguas humanas para a procura de universais, e neste sentido, parece-me chamativo o facto de não se fazer especial finca-pé no facto de a absoluta maioria das investigadoras e investigadores na maior parte das línguas terem formação ocidental (embor...

Leitura em termos de cosmovisão do acusativo de direção russo, e, especialmente da sua exceção.

  A minha análise da cosmovisão numa língua vai-se centrar na construção do acusativo de direção em russo (por ser esta uma língua de que tenho algum conhecimento prévio), que requer dos seguintes elementos: - Um verbo cuja natureza semântica implique a ideia de direção. - As preposições в/на, que são as mesmas que vão indicar a localização ‘estática’ nas construções com caso prepositivo, de forma que o sentido de direção vai ligado estritamente ao significado do verbo (e dos seus prevérbios ou prefixos, muito típicos no russo) e, também, ao papel mais ou menos central deste complemento (introduzido pelas preposições) marcado pelo caso acusativo, o do complemento obrigatório de um verbo, ou por um caso oblíquo, levando-nos a pensar que não é, nesta língua, tão essencial pensar onde estamos mas sim para onde vamos. - Como já mencionámos, um lugar em caso acusativo, por ser considerado um complemento obrigatório do tipo de verbo que se usa nestas construções. Exemplos: Я ид...

Reflexão sobre o nahuatl, suaíli, japonês e dyirbal

  Breve reflexão sobre o exercício: Depois de analisar as amostras que nos foram dadas de diferentes línguas, penso que foi no exercício sobre o nahuatl que consegui perceber e refletir mais em profundidade em termos de gramática. Como já nos foi indicado, a análise morfológica dos verbos desta língua aglutinante permite-nos localizar muitos elementos funcionais aderidos à raiz deste. Nas minhas conclusões finais deste exercício destacaria em primeiro lugar as grandes semelhanças que encontrei em certas questões gramaticais, que não sei exatamente como qualificar ou categorizar, entre esta língua e as línguas indo-europeias (à diferença do dyirbal, por exemplo, cujo “funcionamento” me custou muito mais a perceber). As semelhanças que quero assinalar são, por exemplo, a conceção do tempo, semelhante à das nossas línguas, que parece refletir a flexão verbal do nahuatl através de marcas específicas para o presente, o passado (pelo menos os contínuos) assim como para o futuro, que es...

Sobre a Morte das Linguas

  Vou centrar a miña reflexión á volta da frase final do exercicio hoxe traballado sobre a ergatividade nas linguas: “Podemos encontrar orde na diversidade”. A tipoloxía lingüística actualmente, por suposto atendendo e valorizando a inmensa diversidade de linguas e formas de estruturar o pensamento e a  vida en comunidade, e construción dunha cultura colectiva  de cada unha delas, procura atopar os universais lingüísticos que caracterizarían o conxunto, o fenómeno, da linguaxe humana (como vimos en Ecolingüística ). Neste sentido, a humanidade atesora e constrúe, como se explicita no documentario Sobre a orixe das linguas , unha visión única do mundo e un concepto único sobre o que é ser humano. Isto é o que explica e xustifica a necesidade de desenvolver unha conciencia colectiva de que todas as linguas son igual de importantes na súa aportación ao patrimonio lingüístico, cultural, filosófico, histórico... da humanidade, e que tod@s debemos implicarnos, por tanto, na...