A Hipótese da Relatividade contradiz a existência de universais?

No exercício proposto sobre a tradução ao alemão de um fragmento de Rayuela de Julio Cortázar podemos comprovar que o tradutor teve que enfrentar, para além das habituais dificuldades da tradução, o desafio de "traduzir" palavras que não existem, cuja sonoridade evoca por vezes palavras reais do espanhol, algo muito difícil de reproduzir noutras línguas.

O significado, a narração de um encontro sexual, é logicamente mais fácil de deduzir para qualquer falante de espanhol, em parte pelas palavras que evocam outras reais (jadehollante- jadeante, envulsionarse- convulsionar, merpasmo- orgasmo). Mas para além disso, eu vejo um outro componente semântico subjacente à narração, que podemos entender como universal, que permite compreender o seu tema, constituído pela presença de dois participantes de ações exercidas um sobre o outro, com verbos que implicam movimento ou sensações tão fortes que também produzem efeitos físicos. No entanto, sob esta descrição, certamente o tema poderia ser, em vez de um encontro sexual, por exemplo uma luta, especialmente numa cultura que não codifique culturalmente o sexo com qualidades como "selvagem" ou "quase cruel" como refere o texto.

Neste sentido, o fragmento da tradução alemã utiliza como recurso a conservação de muitas das palavras originais inventadas por Cortázar, às que adere morfemas reais alemães, provavelmente com a intenção de conservar essa sensação de estar a ler palavras que poderiam existir na língua mas não existem. E, enquanto isto, traduz todas as palavras que sim são reais, de forma que podemos entender que esses elementos "essenciais" que em castelhano são suficientes para as leitoras e leitores perceberem a narração embora esteja repleta de palavras sem sentido, o alemão, com os elementos equivalentes na sua língua (a menção de dois participantes, os movimentos, as sensações...) também produz a mesma associação em quem está a ler, mesmo com palavras "traduzidas de um espanhol inventado". Talvez podamos pensar com isto na possibilidade de encontrarmos, através de exemplos como este, uma espécie de universais semânticos (ao estilo dos propostos por Anna Wierzbicka?) para a descrição ou codificação dos encontros sexuais, se isto acontecer sistematicamente na comparação entre línguas.

Penso também que este exemplo pode supor também uma boa metáfora da tradução desses termos "intraduzíveis" que cada língua possui, já que, se podemos perceber aquelas coisas de mais universais na base da construção convencional das culturas, e, portanto, daqueles termos linguísticos puramente culturais que refletem a sua cosmovisão, poderemos percebê-los em certa medida, em chave universal. Isto apesar de perdermos essa parte do conteúdo que é de acesso exclusivo para aquelas pessoas que façam parte da comunidade, assumindo que é só no pensamento delas que o conceito influi decisivamente, enquanto que no das pessoas alheias a essa língua e cultura deveremos suplir a ausência dessa ferramenta com os nossos próprios conceitos, para mim simbolizado por essas palavras inventadas que não nos aportam significado mas também não impedem a compreensão do tema geral no texto de Cortázar.

Neste sentido, esta explicação encaixa com a ideia exposta no fragmento posterior, de forma que poderemos pensar que estes termos intraduzíveis que derivam das convenções culturais ou os campos léxicos ricos para descrever o entorno de cada comunidade linguística, não são tão exclusivos ou tão diretamente derivados da realidade extralinguística como em muitas ocasiões pensamos, como explica Teresa Moure (2019). Utilizando o exemplo do texto com o termo 'morrinha', não podemos explicar este conceito "intraduzível" de duas perspetivas? Da perspetiva relativista podemos tomar a consideração de que aquelas pessoas socializadas na nossa língua e cultura adquirem nas fases de conformação das suas estruturas de pensamento a ferramenta que este termo/conceito supõe e que nos condiciona de uma forma específica para interpretar o mundo, que não vai existir nem funcionar da mesma maneira dentro do marco doutras línguas e culturas. E de outro lado, podemos pensar que há algo humanamente universal 1) no facto de as culturas que compartilham uma tradição histórica de migração desenvolverem termos suficientemente "comparáveis" para expressar a nostalgia pela terra natal de que se parte (como o "dor" romeno que mencionámos na aula nalguma ocasião) e 2) na possibilidade de todos, em geral, as pessoas sermos capazes de compreender esta codificação da realidade quando nos é explicada, mesmo se nós próprios não tivermos essa ferramenta na nossa língua. 

Embora construamos o nosso mundo com as ferramentas que a nossa língua nos dá, não é interessante nos adentrarmos naqueles mundos possíveis, cognitivamente compreensíveis para nós por quanto somos humanos (e compartilhamos uns universais mínimos embora existentes), que o resto de línguas nos oferecem?

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