Sobre a leitura dos capítulos 3 e 8 de Pinker

 Este autor demonstra uma postura universalista extrema, desabalando completamente a teoria do relativismo linguístico, já que afirma que a linguagem não pode condicionar nenhum aspeto do pensamento humano, e o faz através das afirmações de Whorf, e do exemplo da obra 1984 de George Orwell. 

Sobre os conhecidíssimos exemplos de Whorf em termos de vocabulário supostamente específico de cada língua que evidenciaria uma cosmovisão única (a "neve" inuit), desmonta essa estendida teoria com argumentos comparatistas com outras línguas e situações (revelando o incorreto deste exemplo para demonstrar qualquer teoria relativista).

No caso da obra de George Orwell, por exemplo, teoriza-se sobre um mundo em que uma linguagem submetida a uns determinados interesses políticos, de controlo absoluto da população, consegue eliminar da sua mente os conceitos de liberdade política etc. eliminando-os da língua, de forma que se tornam inconcebíveis, isto suporia um absoluto extremo da posição relativista, ao nível das experiências de Bloom com os contrafácticos da língua chinesa, em que conclui que as e os falantes de chinês não perceberiam este tipo de pensamento, por não terem ferramentas "diretas" para expressar estas construções. O seu argumento para desacreditar estas opiniões é que, existindo pensamento para além da linguagem, este permitiria que, para além das estruturas de cada língua, qualquer ser humano tem as mesmas estruturas de pensamento, que simplesmente se expressam em línguas diferentes, que parece ver como meros veículos de comunicação, sem nenhum tipo de consequência na estruturação do pensamento.

Para sustentar a sua teoria, Pinker baseia-se nas experiências que demonstram a existência de pensamento não linguístico (por exemplo através de elementos mentais visuais) e com isto argumenta que é impossível a língua condicionar esses pensamentos, e, portanto, o conjunto do pensamento. Indo mais alá defende que existe uma espécie de "linguagem" mental que permitiria perceber aqueles conteúdos que a língua não explicita, e que um sistema de processamento não humano não consegue interpretar, por exemplo a chamada "dêixis" e toda a produção linguística tão diretamente dependente do contexto de emissão. 

Também utiliza o argumento da universalidade da perceção das cores e dos contrastes entre estes pelo olho humano, invariável apesar das categorias de que cada língua dispõe para classificar em termos visuais os elementos do mundo à sua volta, argumento sobre o qual também teoriza amplamente Anna Wierzbicka, apesar de ela conceder espaço à relatividade naquilo que cada comunidade considera relevante dessa "realidade" extralinguística do mundo visual, segundo esteja codificado na sua língua.

O autor critica o simplismo (e com razão) dalgumas explicações relativistas, como a referida atribuída a Whorf sobre o léxico, mas cai no mesmo erro quando ignora todas aquelas questões totalmente culturais das línguas, que não fazem sentido fora da sua cultura como algumas das classificações de género das línguas bantús que referem questões religiosas como o facto de os espíritos dos ancestros poderem apresentar-se no corpo de animais selvagens, e incluírem nessa categoria aquelas pessoas da comunidade que guardam relação com esses espíritos, os nossos sacerdotes, por assim dizer (como sinala Palmer). Nesse caso a língua, por quanto conserva estas categorias com pleno significado ao longo do tempo, exige uma forma de pensamento religioso concreta.

Aliás, penso que a sua teoria de universais, como defendido anteriormente neste blogue, não permite a necessária convivência com aqueles elementos puramente culturais que condicionam (embora não limitem completamente) o pensamento humano. Ou seja, considero que falta uma apreciação do facto de que, embora a nossa língua não elimine a nossa capacidade humana de perceber aquilo que outras mentes humanas podem pensar, sim "conduz" o nosso pensamento pelas vias "não marcadas" do seu sistema interno, como por exemplo ficaria evidenciado mais à frente, no capítulo 8, em que explica como apesar de o espanhol não ser uma língua ergativa, constrói por vezes estruturas linguísticas "desse tipo", evidenciando que, como língua humana, não teria impedimento algum para ser ergativa, e portanto, representar uma conceção metalinguística diferente por parte do falante de sujeitos e objetos.

Neste outro capítulo da leitura, trata o tema, possivelmente ainda mais obscuro, da origem e evolução das línguas. Em síntese, apesar de as línguas virem umas das outras, o autor salienta a possibilidade destas evoluírem e mudarem muito rapidamente dentro do espetro de variação da linguagem humana, aliás, fazendo referência a essa ideia formulada por Chomsky como que se um marciano viesse à Terra, consideraria que todos os humanos falamos uma mesma língua, um bom exemplo é o anterior sobre as construções ergativas, que, por qualquer circunstância histórico social, poderia passar a ser a forma de evolução do espanhol (assim como a flexão desapareceu do inglês). Aliás, o autor faz finca-pé no interessante dos processos de crioulização à hora de estudar o funcionamento, a aquisição das línguas e as próprias estruturas cognitivas linguísticas.

De facto a existência dos universais linguísticos, decerto ligados à nossa condição biológica de humanos, como pude entender na leitura e não reparara antes, é a explicação de as diferentes línguas do mundo, espalhadas por todo o planeta, sem contato durante milénios, não se afastaram em termos de estrutura sintática (e mesmo semântica) para além de uns limites, permitindo-nos classificá-las todas dentro de uns parâmetros, em função, por exemplo da posição dos sujeitos, verbos e objetos, que desenvolve amplamente Pinker neste capítulo, tomando essas funções como universais, assim como as categorias de nome e verbo (não sendo tão claro, por exemplo, no caso dos adjetivos, como vimos nas aulas).

Na procura das origens da linguagem e das línguas, também vai manifestar a sua posição em contra das reconstruções das proto-proto-proto-línguas, que se remontam a milénios atrás no tempo, afirmando que hoje em dia já é impossível haver vestígios fiáveis tão antigos nas línguas, em constante evolução e re-interpretação pelas falantes, que, ao meu ver, pensando nos canais da sua língua, mas não totalmente coartados por ela, conseguem re-avaliar consciente ou inconscientemente as suas estruturas, que são suscetíveis de mudança (a nível linguístico e mental).

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