Complemento direto como universal linguístico
Após termos visto a função do Complemento Direto como universal linguístico segundo postula Teresa Moure, cobram sentido diversos fenómenos linguísticos ocorridos em muitas línguas ao longo do tempo (e ainda em curso).
Por exemplo, a construção galego-portuguesa "assistir a" + "uma conferência", "um filme"... está a perder no Brasil a regência da preposição, passando por tanto a ter um complemento direto que funciona como absolutamente prototípico nesta variante da língua. Desta maneira, aliás, no Brasil este objeto pleno passa a poder ocupar a posição de sujeito na construção passiva como em "O filme foi assistido por vinte mil pessoas", coisa impossível nas variantes europeias.
Assim, podemos apreciar uma reinterpretação desta entidade, que constitui "o segundo actante da construção transitiva" como define Moure o Complemento Direto, e apesar de não ser o exemplo mais prototípico (uma entidade afetada pela ação verbal, com papel de paciente, requisito demonstradamente suficiente mas não necessário), perde a preposição que marcava essa "especificidade" que já não existe, e fica um exemplo ao nível do "Juan abandonó su ciudad natal" que vimos nas aulas, onde a cidade também não é um paciente que fique afetado pela ação verbal.
Segundo os critérios de Hopper e Thompson (1980) para medirmos o grau em que uma cláusula é transitiva, eu considerei que a cláusula "Ele assistiu o filme", absolutamente natural no Brasil, cumpre 6/9 dos "requisitos" (2 participantes, aspeto/pontualidade, polaridade, modo real, volicionalidade, e individuação do objeto), de forma que, dentro desta categoria difusa, cumpre suficientes requisitos como para que seja perfeitamente razoável incluí-lo como um complemento direto suficientemente prototípico, e, aliás, esta é uma análise metalinguística dos falantes que é completamente lógica e económica em termos linguísticos dentro do seu sistema, evolução natural da língua, que elimina uma convenção desnecessária e obsoleta na sua comunidade de fala, embora hoje em dia esteja ainda estigmatizada, por critérios de preconceito sobre as variantes linguísticas brasileiras, que nada têm a ver com um estudo rigoroso das línguas.
Comentarios
Publicar un comentario