Leitura em termos de cosmovisão do acusativo de direção russo, e, especialmente da sua exceção.
A minha análise da cosmovisão numa língua vai-se centrar na construção do acusativo de direção em russo (por ser esta uma língua de que tenho algum conhecimento prévio), que requer dos seguintes elementos:
- Um verbo
cuja natureza semântica implique a ideia de direção.
- As
preposições в/на, que são as mesmas que vão indicar a localização ‘estática’ nas
construções com caso prepositivo, de forma que o sentido de direção vai ligado estritamente
ao significado do verbo (e dos seus prevérbios ou prefixos, muito típicos no
russo) e, também, ao papel mais ou menos central deste complemento (introduzido
pelas preposições) marcado pelo caso acusativo, o do complemento obrigatório de
um verbo, ou por um caso oblíquo, levando-nos a pensar que não é, nesta língua,
tão essencial pensar onde estamos mas sim para onde vamos.
- Como já
mencionámos, um lugar em caso acusativo, por ser considerado um complemento
obrigatório do tipo de verbo que se usa nestas construções.
Exemplos:
Я иду на
концерт.
Vou a um
concerto (prep. + acusativo masculino singular inanimado não marcado).
Я иду в
библиотеку.
Vou à
biblioteca (prep. + -y = marca de acusativo feminino singular).
Em termos de
cosmovisão, devemos pensar então que em russo nenhum movimento tem, a priori,
sentido se não tiver um destino? A análise desta construção gramatical em russo
levou-me a pensar em como nesta língua é especialmente evidente que o verbo de
movimento tem, de forma “não marcada”, essa direção ou destino, cuja ausência é
um fenómeno inusual que deve ser marcado, como em:
Прогуляться
Passear (про-
= prevérbio que implica “percorrer” гулять = “caminhar de um lugar a outro”
ся = pronome reflexivo).
De forma que
para nós teria o matiz reflexivo marcado, na forma de “passear-se”. Isto
aconteceria, ao meu ver, porque, sendo tão óbvio que este tipo de verbos requer
um complemento obrigatório, como já vimos, expressado em acusativo por
esta razão, quando não há uma direção, ou não queremos colocar nela o foco de atenção
quando falarmos, deve haver outro elemento que substitua esse complemento,
neste caso o pronome reflexivo (que terá essa função de complemento
obrigatório, e, ao ser um ser animado, tipicamente, em vez de uma direção, sim
encaixa no que nós traduziríamos como um Complemento Direto).
Agora
passamos à exceção, que considerei especialmente interessante:
Я иду домой.
Vou para
casa (forma que não corresponde ao acusativo дом, do nominativo também дом = “casa”
e ausência de preposição).
Este fenómeno
ocorre exclusivamente (até onde eu conheço e pude descobrir) quando o lugar de
destino do verbo é ‘casa’, concretamente a casa da pessoa que está a falar (se
for uma casa alheia a construção será a esperável: Я иду в дом Марии = “vou
à casa da Maria”).
A forma домой
utilizada nesta construção provém da raiz do antigo eslavo para o dativo, e
recuando no tempo é possível detetar uma explicação para esta “anomalia”. Segundo
pude encontrar, esta terminação pode ser ligada com as terminações de dativo *-ōi e locativo *-oi indo-europeus, e
sabemos também que estes dois casos teriam, em muitas línguas, confluído num “dativo-locativo
sincrético”, como sinala Francisco Villar (1981; 7).
Então, tentando analisar este
fenómeno de conservação desta forma arcaica unicamente neste caso, em termos de
cosmovisão, pergunto-me; porque é que a conservação desta terminação do
locativo-dativo arcaico teve lugar especificamente na palavra que se refere à casa,
e mais concretamente, apenas na construção que se refere à casa própria? Parece
evidente que a nossa casa é o melhor lugar para irmos em qualquer situação, para
estarmos com a nossa família, para nos sentirmos seguros, para nos abrigarmos…
Talvez o sentido próprio, especial, familiar, único, de estarmos “em
casinha” tenha levado à conservação da forma arcaica de referir-se a este lugar,
em termos de cosmovisão tão diferente de todos os outros.
Este mesmo fenómeno acontece,
novamente apenas na palavra дом, no caso prepositivo, que, como mencionámos no início, assumiu a função
locativa na língua russa, nas construções como:
Я в
ресторане
Estou num
restaurante (prep. + -e = terminação do caso prepositivo)-
Я дома
Estou em
casa (forma que não se corresponde com o prepositivo доме como na esperável Я в
доме Mарии = “estou em casa da Maria”, novamente referida a uma casa alheia, e
ausência da preposição).
Novamente
esta forma em -a corresponde-se com a forma arcaica do locativo outras línguas
indo-europeias, que o russo não conserva a não ser nesta palavra, e a este caso
atribuo a mesma explicação que ao anterior; não é a nossa casa ao melhor lugar
para estarmos? Um espaço único e diferenciado do mundo exterior, ao que nos
referimos de uma forma, portanto, diferente? Neste caso, melhor dito, não mudando
a nossa forma de nos referirmos à nossa posição com respeito dela enquanto sim mudamos
com respeito do resto.
Bibliografia:
Blog atrasado. Muito. Estamos em maio. Entradas sobre a leitura de Palmer? De Chomsky/Comrie? Sobre género, adjetivo, cdir? Sobre universais? Sobre Wierzbicka?
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